— Em sua memória

Leonardo Frankenthal

Advogado criminalista. Mestre do direito. Um dos maiores que o Brasil já conheceu. Pai. O homem que aprendeu a ler dentro de um processo e nunca mais parou.

O Dr. Leonardo Frankenthal é reconhecido como um dos maiores criminalistas da história do Brasil.

Natural de São Paulo, formou-se pela tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na turma de 1959. Ao longo de sua trajetória, tornou-se conhecido como o “Leão dos Tribunais”, alcunha que traduzia não apenas sua força oratória, mas também sua coragem, sua técnica e sua presença marcante perante o Júri.

Seu legado para o Direito Penal brasileiro é incomensurável. Com atuação decisiva em casos de grande relevância, contribuiu para transformar a interpretação de inúmeras questões jurídicas, influenciando decisões e entendimentos que permanecem vivos até os dias atuais.

Foi membro da Société Internationale de Criminologie, em Paris, da International Academy of Trial Lawyers, nos Estados Unidos, e um dos fundadores da Acrimesp.

Em mais de mil júris realizados ao longo da carreira, atuando ora na defesa, ora como assistente de acusação, perdeu apenas dois — feito que revela a dimensão excepcional de sua atuação profissional.

Com uma forma singular de compreender o Direito Criminal, Leonardo Frankenthal sempre lutou por Justiça. Foi precursor de ideias, responsável por avanços relevantes e por mudanças que marcaram profundamente a advocacia criminal brasileira.

Também foi pioneiro ao introduzir no Brasil o conceito de “advocacia completa” — Full Service, reunindo em seu escritório parceiros especialistas nas mais diversas áreas do Direito. À época, na década de 1970, tratava-se de uma inovação rara e visionária.

Sua única filha, Dra. Lilia Frankenthal, herdou do pai o senso de justiça, o legado jurídico e a paixão pelo Direito — dando continuidade a uma história construída com coragem, tradição e compromisso absoluto com a Justiça.

- 28 de maio de 2024

Meu Pai. Meu Mestre. Meu amigo. Meu ídolo.

Hoje faz 20 anos que você se foi.

Nossa conversa hoje é sobre a paixão pelo Direito e acomo você forjou a Advogada que hoje sou.

Me pediram para escrever sobre como eu quis me tornar Advogada. E eu só sei contar isso falando diretamente com você.

Ainda me lembro de quando eu era pequena, bem pequena, e "atendia" os clientes junto com você, sentada embaixo da mesa. Munida de papel e lápis, fazia minhas anotações relevantes.

Queria ir ao escritório todos os dias. Aquele mundo me fascinava.

Às vezes saía do meu posto para oferecer Maracugina para algum cliente que eu julgasse estar nervoso.

Ou para ir à sala dos biscoitos, uma "sala secreta" dentro da sua, com um sem-número de latas de biscoito coloridas, lugar onde eu ficava quando não podia atender algum cliente com você.

Os processos físicos eram levados para casa. Eu descia as escadas no meio da noite, em absoluto silêncio, para ler aqueles volumes intermináveis, fascinada.

E a vontade de entender tudo aquilo era tamanha que, mesmo antes de entrar na escola, aprendi a ler sozinha. Assim como você, aprendi o bê-á-bá em um processo.

Eu era a sua assistente.

Por vezes você atendia os clientes com a Meg no colo ou acompanhado do Mack, um dog alemão que esqueceu de parar de crescer e mais parecia um cavalo.

Seu amor por animais herdei também. 

A cada júri, você saía de casa concentrado. E, antes que eu tivesse idade para poder acompanhá-lo, eu dormia no alto da escada, esperando você voltar. Ao ouvir seu carro entrando na garagem, descia como um bólido e me jogava nos seus braços, perguntando "Ganhou?";

E você sorria para mim e dizia "Ganhei".

Muitos anos depois você me confidenciou que sempre pensava que tinha que dar o máximo em cada júri, porque eu estaria esperando por você com a mesma pergunta - e você não poderia rresponder que não.

Quando cresci um pouco mais e vovó ficava comigo enquanto você se ausentava, às vezes por dias, para algum júri, eu tanto pedi, tanto insisti, que, um dia, no Júri da Rota 66, ela não resistiu e me levou.

Seu olhar quando entrei naquela sala foi inesquecível.

Depois disso, passei a ocupar uma cadeira ao seu lado no Plenário. Sua "assistente oficial". Atenta a cada detalhe, cada expressão.

Havia filas intermináveis para assistir aos seus júris. Quando o adversário em plenário era Valdir Troncoso Peres, havia até torcida — e os juízes enlouqueciam tentando manter o Plenário em silêncio. Era um verdadeiro espetáculo de técnica; valia por mil faculdades. Dos inúmeros júris que fizeram, você perdeu apenas um. Combatiam com vigor em plenário e, depois, saíamos todos para jantar. Respeito e ética imperavam.

Até eu completar 12 anos, você nunca chegou em casa sem um gibi na mão. Todos os dias. A leitura era incentivada sempre, desde muito cedo - desde o dia em que você percebeu, surpreso, que eu tinha aprendido a ler sozinha, nos processos.

A partir dos 12, passei a integrar oficialmente a "equipe do escritório". 

Naquele dia que tanto esperei, entrei pelo escritório "vestida de Advogada", pronta para começar meu primeiro dia de trabalho. Perguntei onde era a "minha sala", ao que você me respondeu:

"Na cozinha."

Sem entender nada, ouvi você continuar:

"Você vai ajudar a servir café. Quando estiver servindo café como ninguém, vai para a xerox. Quando estiver tirando cópias como ninguém, vai para o telex. E assim por diante. Você precisa passar por todas as etapas deste escritório antes de poder ter a sua sala."

Ali entendi que tudo na vida demanda esforço e dedicação. Que, para conhecer alguma coisa, é preciso vivê-la. É preciso conhecer todos os detalhes.

E, mais tarde, isso me levou a compreender que, para entender o problema de um cliente, você precisa saber se colocar no lugar dele. 

No dia em que o vovô faleceu, você tinha uma audiência. Um caso de repercussão. Quando vi você se arrumando, com as lágrimas correndo pelo rosto, não entendi.

Ao que você me explicou:

"O que precisa ser feito, tem que ser feito. O futuro de um homem depende de mim. Posso atrasar para me despedir do seu avô. Ele me apoiaria."

Ali entendi que ser advogado transcende o  "ter uma profissão". Que é preciso ser Advogado na alma. Que, nas nossas mãos, na nossa atuação e na nossa dedicação, está o futuro de alguém que confiou em nós. 

A sua exigência comigo era muito acima do que se pode ditar como "normal". Hoje eu entendo o porquê.

Depois que você se foi, pensei que não poderia mais continuar na Advocacia. Tudo me lembrava como éramos uma dupla invencível. No direito. Na vida.

Mas a gente não pode se afastar por muito tempo do que nasceu para ser.

E eu retornei à Advocacia.

Nunca vou me esquecer do primeiro caso emblemático que aceitei sozinha. Uma injustiça sem tamanho. Um júri sem você.

Subi a rampa do Fórum com os olhos marejados. Coração acelerado.

Ao final, já alta madrugada, o resultado: eu tinha conseguido a merecida e necessária justiça e a absolvição do meu cliente.

Foi uma emoção inigualável. Um misto de "missão cumprida", alívio e satisfação.

Naquela hora, entendi que eu não estava sozinha naquela rampa: você estava comigo, na forma de tudo que aprendi e na paixão que herdei pelo Direito.

Como você me dizia: só pegue casos em que você tenha absoluta convicção da verdade que vai defender; nunca aceite quando tiver dúvidas ou quando for contra seus valores e princípios; e lembre-se que o futuro de alguém vai depender da sua atuação. 

E, acima de tudo, seja humana.

"Porque para ser Advogado é preciso ter capacidade para transmitir o que vai pela alma.

E sobretudo, ter alma."

E assim continuamos.

Juntos.

Na vida.

E na Advocacia. 

/ Sua constituição filosófica

A advocacia criminal

"Jamais poderia alguém, senão impelido por irresistível paixão e impulso vocacional, corresponder aos desejos e esforços que exige o exercício da advocacia, especialmente a criminal, nem saber, com serenidade, aceitar e entender as satisfações imensas que proporciona.

Querer definir o encanto da advocacia criminal é o mesmo que tentar, com precisão científica, conceituar, por exemplo, a bondade, a esperança, a fé;

Uma coisa, entretanto, deve prevalecer no advogado: a crença na natureza humana, o amor à Justiça, a vontade de dar segurança e amparo a quem necessita. Nenhuma outra atividade proporciona meios iguais para a prática desses ideais."

— Leonardo Frankenthal

"Para ser Advogado é preciso capacidade para transmitir o que vai pela alma.

E sobretudo ter alma."

Wide environmental shot of a law office interior, warm diffused window light falling across a heavy wooden desk covered in stacked legal documents and a worn leather-bound book open at the center, bookshelves dense with volumes filling the background, no people present — a space that holds the weight of decades of practice
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▸ Casos e memórias

O que ele deixou como legado

Ao longo de décadas, Leonardo conduziu casos que entraram para a história do direito criminal brasileiro — reconhecido por pares, adversários e pela própria memória do sistema de Justiça.

Mais do que os veredictos, ficaram os ensinamentos: que a fé na natureza humana não é ingenuidade, é o fundamento ético de toda defesa digna. Esse legado orienta cada passo deste escritório.

A advocacia como forma de fé

Nas memórias jurídicas que Leonardo Frankenthal deixou, o direito criminal revela-se não só como técnica, mas como convicção. Lilia Frankenthal herdou essa filosofia e carrega o propósito adiante.